Profa. Rosani K. Cunha (Professora do Curso de Licenciatura em Filosofia PUCPR)
Aristóteles (384-322 a.C.) nasceu em Estagira e é considerado também um historiador e sistematizador de todo o pensamento grego anterior. Seu espírito enciclopédico o fez produzir uma obra monumental. Entre as várias áreas do conhecimento desenvolvidas por Aristóteles sob o princípio racional (metafísica, biologia, lógica, política, arte, entre outros) está a Ética, tema exposto nos seus livros intitulados Ética a Nicômaco, Ética a Eudemo e a Grande Ética. Interessa-nos aqui a Ética a Nicômaco com o objetivo de expor os pontos decisivos a propósito da ética, ou seja, aquela que diz respeito a melhor forma de viver e agir, adquirida pelo uso correto da razão. A Ética a Nicômaco apresenta o tema em 10 livros, sendo que cada um deles está subdividido entre 9 e 14 capítulos, nos quais discute o objeto de estudo da ética, vale dizer, as seguintes questões: O que é ser feliz? Como viver bem?
No livro 1 da Ética a Nicômaco, Aristóteles tem como ponto de partida para essas estas interrogações, a explicação sobre a natureza da felicidade e, no decorrer da obra, nos deixa uma análise do que entende por Eudaimonia, ou seja , a Felicidade Perfeita ou Sumo Bem, que é o verdadeiro sentido da vida, e, só é possível no exercício da atividade contemplativa, proporcionada por uma vida em que as finalidades últimas de cada ação sejam atingidas, em resumo, uma vida virtuosa. No livro 1 da ética a Nicômaco , o filósofo apresenta sua tese na afirmativa de que “A felicidade é uma atividade da alma conforme a virtude perfeita”. (A Ética Nicomaquéia, I, 13 1102 b5), portanto, neste livro se discute a relação entre felicidade e virtude.
Para compreender esta tese é preciso refletir sobre a função do homem, visto que Aristóteles admite que para toda arte, investigação, e, sobretudo, para toda a ação e toda a escolha existe uma finalidade última, o que ele chamou de Bem, quando disse que “o bem é aquilo a que todas as coisas tendem” (A Ética a Nicômaco, I, 1 1094 a5), Mas qual será o bem que o homem almeja como fim último de sua vida? A felicidade!Mas no que acreditam consistir a felicidade ? Será o prazer, a honra, a riqueza? Segundo o filósofo, identificar estas conquistas com felicidade, embora tenha um certo fundamento, é próprio do tipo mais vulgar de homem, pois o prazer pode torná-lo, por exemplo,escravo dos vícios; a honra que é a finalidade da vida política, é superficial para ser o fim último, pois como disse o filósofo, “depende mais de quem a confere do que de quem recebe”( I, 5 1095 20a), logo não é um bem próprio do homem, inclusive ele pode perdê-la. Quanto a riqueza, afirma que “é algo útil e nada mais, e ambicionado no interesse de outra coisa” ( I, 5 1096 10a), portanto, prazer, honra e riqueza não são bem último dos homens , ou seja, um bem universal para o qual todas as outras coisas se fazem, pois a felicidade é buscada sempre por si mesma e nunca com vistas a outras coisas, como diz o filósofo “ A felicidade é, portanto, algo absoluto e auto-suficiente, sendo também a finalidade da ação” ( I, 7 1097 20b).
Aristóteles acredita que o homem feliz é aquele que vive bem e age bem, assim entende-se que a felicidade pode ser conquistada por meio de ações refletidas, estudadas e mediadas pelo uso da razão sobre as paixões. Uma ação nessas condições é virtuosa, logo, percebe-se a relação intrínseca entre virtude e felicidade e, ainda, que são próprias da atividade da alma humana. Portanto, para compreendermos em que consiste a felicidade, é necessário entender a virtude sob a concepção de alma trazida pelo filósofo.Segundo Aristóteles, a alma tem uma parte racional e outra parte privada de razão e que se divide em duas outras partes, uma de natureza vegetativa (faculdade que busca a nutrição, que comum a todas as espécies) e outra também irracional , a parte sensitiva ou apetitiva da alma, responsável por nossos impulsos, nossas vontades desejos, que tende a nos levar para ações viciosas, mas que pode ser persuadida pelo elemento racional e obedecer-lhe e levar o homem a agir bem, e viver bem, pois o efeito da sua ação lhe será aprazível permanentemente. Aristóteles explica que esta tese que consiste em dizer que o ser humano alcança a felicidade quando consegue agir nas situações em que é impulsionado pelos sentimentos e paixões que lhe são relativos, segundo o critério do justo meio, ou seja, ação mediana, de equilíbrios entre extremos como falta e excesso, considerados vícios vale dizer, ações que tendem para um resultado negativo tanto para o sujeito da ação como para seu meio, portanto virtude seria o oposto dos vícios. Assim, para desenvolver e adquirir as virtudes que constituem o conteúdo da felicidade é necessário que o elemento racional da alma humana controle o elemento irracional característico da parte apetitiva da alma. Esse empreendimento requer sabedoria prática, aquela adquirida com vivências refletidas e aperfeiçoada com o hábito. Nesse sentido é que o filósofo traz no livro I da ética a Nicômaco, a menção a Hesíodo:
Ótimo é aquele que de si mesmo conhece todas as coisas;
Bom, o que escuta os conselhos dos homens judiciosos.
Mas o que por si não pensa, nem acolhe a sabedoria alheia,
Esse é, em verdade, uma criatura inútil
(Hesíodo, trabalhos e Dias,293 ss, in.A Ética Nicomaquéia, 1, 1095 b 10)